Vitão no estúdio
Bastidores

A noite em que compus
"O Que É Amar?"

Vitão  ·  10 de Abril de 2026  ·  6 min de leitura

Era quase três da manhã quando encontrei o acorde. Não aquele acorde genérico que você aprende no primeiro mês de violão — mas o acorde que só existe para uma música específica, naquele momento específico. Um Lá menor com a sétima suspensa que nunca usei antes e provavelmente nunca vou usar de novo do mesmo jeito.

O estúdio estava vazio. Eu e o engenheiro de som, Thiago, que já dormia no sofá da sala de controle com o notebook sobre o peito. Não quis acordá-lo. Liguei o gravador de voz do celular, joguei no chão de concreto perto do amplificador, e comecei.

"A pergunta que dá nome à música me perseguia há anos — não como angústia, mas como curiosidade genuína."

Eu tinha 24 anos quando percebi que nunca tinha realmente definido o que era amar para mim. Tinha namorado, tinha me apaixonado, tinha sofrido — as três coisas que todo mundo confunde com amor. Mas definir? Nunca.

O refrão veio primeiro. Isso é raro para mim. Normalmente construo o verso, estabeleço o contexto, aí o refrão surge como conclusão inevitável. Dessa vez, a conclusão chegou antes do argumento. E eu precisei escrever o resto da música para entender o que eu tinha acabado de cantar.

"Escrever a letra foi entender a resposta — não encontrá-la."

Quando Thiago acordou às cinco e meia, a música estava quase toda lá. Faltava a ponte — aquela parte que em "O Que É Amar?" o samba de raiz corta o R&B e te joga para dentro. Isso levou mais três semanas. Mas a espinha dorsal da canção, tudo que importa, estava naquela fita de celular de uma noite de março.

Guardo esse arquivo de voz até hoje. Tem 4 minutos e 17 segundos de um cara sozinho num estúdio frio, descobrindo o que significa amar enquanto canta. Para mim, essa é a versão mais honesta da música. O resto é produção. O que vale é aqueles 4 minutos de chão de concreto e luz de neon.